Nikita Vieira quer dar voz às mulheres
O judo ensinou-lhe a lutar pelos objetivos e levou-a ao alto rendimento. Hoje, Nikita Vieira trabalha em projetos internacionais ligados à modalidade e quer fazer do Miss Queen Portugal France 2026 uma oportunidade para transmitir uma mensagem: uma mulher é muito mais do que a sua aparência.
Nikita Vieira nasceu em França e tem raízes familiares em Loureira, na região de Fátima, Leiria. Portugal faz, assim, parte de uma identidade construída entre os dois países. Contudo, para conhecer Nikita é preciso falar de desporto. Afinal, o judo acompanha grande parte da sua história e ajudou a transformar a jovem tímida que entrou pela primeira vez num tatami aos 10 anos.
Antes disso, praticava ballet, enquanto o irmão fazia judo e foi o pai quem a incentivou a experimentar a modalidade. “O meu pai queria que eu aprendesse a defender-me porque era uma rapariga. Queria que eu tivesse armas para a vida”, recorda.
Uma promessa ao pai e um cinturão negro
As primeiras competições despertaram uma ambição que acabaria por conduzi-la ao alto rendimento. Nikita queria evoluir. Mais do que isso, tinha feito uma promessa ao pai: chegar ao alto nível e conquistar o cinturão negro. E cumpriu.
A conquista aconteceu em dezembro de 2019 e teve um significado especial. Nikita recebeu o cinturão negro precisamente no dia do aniversário do pai. Foi também com o apoio dele que continuou a perseguir o sonho de competir ao mais alto nível. “O meu pai ficou sempre ao meu lado, vinha a todas as competições. Foi o que mais partilhámos na vida”, conta. Aos 17 anos, saiu de casa e mudou-se para Lyon. E durante três anos, conciliou os estudos com treinos intensivos e competições. “Pensei que tinha de dar tudo para conseguir o meu objetivo”, recorda. O tempo provou que a decisão valeu a pena. Hoje, descreve esse período como “os melhores três anos” da sua vida.
Do tatami aos projetos internacionais
Entretanto, Nikita deixou o alto rendimento, mas não abandonou o judo. Continua a treinar no clube onde tudo começou. E agora, transformou a experiência enquanto atleta numa oportunidade profissional.
Depois de estudar comércio e concluir o mestrado, passou dois anos em alternância na área das relações internacionais da Federação Francesa de Judo. Atualmente, continua ligada à instituição, onde trabalha na gestão de projetos além-fronteiras. Uma função que lhe permite olhar para o desporto além da competição. Entre os projetos que mais a motivam estão iniciativas que procuram levar o judo a jovens e comunidades com menos oportunidades. Como por exemplo Senegal e Guatemala, onde já desenvolvem projetos piloto relacionados com o judo. “Quero estar em projetos onde a minha participação ajude e mude alguma coisa”, explica.
“Uma mulher não é só um físico”
Por outro lado, entra neste concurso com uma ideia clara sobre aquilo que gostaria de fazer caso conquiste o título. Uma dessas mensagens passa pela relação com o corpo e pelos padrões de beleza difundidos pela televisão e pelas redes sociais. “Uma mulher não é só um físico. As mulheres não são perfeitas como podemos ver na televisão ou nas redes sociais”, sublinha. Nikita fala também a partir da experiência pessoal. Durante a juventude, enfrentou dificuldades relacionadas com a alimentação e com a imagem corporal. Por isso, considera importante mostrar a outras jovens que não estão sozinhas.
Mas há outra causa que pretende defender: a igualdade entre mulheres. Nikita reconhece que cresceu num contexto onde pôde estudar, escolher o seu caminho e usufruir de liberdade. No entanto, sabe que essa realidade está longe de ser universal. “Eu tive a sorte de nascer num país e numa família onde tenho direitos e liberdade. Infelizmente, há outra mulher igual a mim, noutra parte do mundo, que não tem essas liberdades.”